Artigos Educativos

O segredo do sucesso de Rui Barbosa

O que fez dos 73 anos de vida de Rui Barbosa um tempo marcadamente profícuo, de abundante produtividade? Como pôde atuar nas funções de advogado, político, pensador, jornalista, diplomata, filólogo, escritor e orador, destacando-se em todas elas?Eis uma brevíssima lista de feitos ruianos:

  • foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras – ABL, e sucedeu a Machado de Assis na presidência da Instituição;
  • foi deputado, senador, ministro da fazenda, havendo recebido diversas honrarias dentro e fora do Brasil por sua atuação política e profissional;
  • foi reconhecido por sua relevante participação durante a 2ª Conferência da Paz de Haia, em 1907, a partir da qual recebeu a alcunha de “Águia de Haia”, pelo brilhantismo do seu protagonismo defendendo a tese de que todos os estados são iguais perante a ordem jurídica internacional; e
  • desenvolveu vastíssima produção intelectual – livros, artigos, pareceres, projetos e discursos –, que já conta com 137 tomos publicados pela Fundação Casa de Rui Barbosa – FCRB.

Rui também deixou frases marcantes, dentre elas uma que foi muito repetida recentemente, dado o contexto que o País vivenciou:

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

Descobri o segredo ruiano por volta de 2003, quando estudava um pouco sobre a vida desse personagem da nossa história. E, por mais que haja especulações sobre as fontes de tamanhas façanhas multidisciplinares, bom mesmo é ouvir a narrativa em primeira pessoa, diretamente da pena do próprio Rui.

Foi assim que encontrei no livro “Oração aos moços” um trecho que traz a lume as raízes que geraram frondosa árvore, pródiga em frutos sazonados.

Antes de entrar no trecho que quero explorar aqui, vamos ao contexto do livro.

A turma de 1920 da Faculdade de Direito de São Paulo ia se formar. Rui foi convidado para ser o paraninfo, mas por motivo de doença não pôde comparecer para falar à turma. Diante desse impedimento, escreveu o seu célebre discurso, que mais tarde viria a ser transformado em livro.

O discurso é uma página magistral no acervo nacional do uso erudito da língua. É daqueles que instigam o nosso pensamento, testando o nosso raciocínio e nos dando exemplo de encadeamento consistente de ideias e de fluidez inteligente com o vernáculo. Coisas que não são muito cultivadas hoje em dia…

Bem, vamos às páginas trinta e um e trinta e dois do livro, direto ao recorte que quero analisar. É o segredo do sucesso do Rui, revelado por ele mesmo.

Estudante sou. Nada mais. Mau sabedor, fraco jurista, mesquinho advogado,
pouco mais sei do que saber estudar, saber como se estuda, e saber que tenho
estudado. Nem isso mesmo sei se saberei bem.
Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Rui Barbosa, [1912]

Fundação Casa de Rui Barbosa

Aqui, o Rui falava sobre ser estudante, muito antes do que se fala hoje em dia de que estudaremos até morrer, o lifelong learning, o aprendizado que se dá ao longo de toda a vida. Quando, já bem entrado em anos, diz “Estudante sou” está falando disso, muitas décadas antes da tão propalada necessidade de se continuar estudando, algo sobre o qual parece haver consenso atualmente.

Ainda nesse primeiro recorte, Rui fala de metodologia (“saber estudar”, “saber como se estuda”) e de prática (“saber que tenho estudado”). Não basta saber como se estuda, é preciso praticar o saber estudar. Metodologia colocada em prática.

Avancemos um pouco mais.

Mas, do que tenho logrado saber, o melhor devo às manhãs e madrugadas.
Muitas lendas se têm inventado, por aí, sobre os excessos da minha vida
laboriosa. Deram, nos meus progressos intelectuais, larga parte ao uso
em abuso do café e ao estímulo habitual dos pés mergulhados n’água fria.
Contos de imaginadores. Refratário sou ao café. Nunca recorri a ele como
a estimulante cerebral. Nem uma só vez na minha vida busquei num
pedilúvio o espantalho do sono. 

Aqui ele desfaz algumas invencionices daqueles que, perplexos, não sabiam como explicar o sucesso laboral do famoso jurista. Além disso, já traz à tona a intensidade da sua prática, mostrando o lugar de destaque que o estudo ocupava no seu dia.

Continuemos com a narrativa.

Ao que devo, sim, o mais dos frutos do meu trabalho, a relativa exabundância
da sua fertilidade, a parte produtiva e durável da sua safra, é às minhas
madrugadas. Menino ainda, assim que entrei ao colégio alvidrei eu mesmo a
conveniência desse costume, e daí avante o observei, sem cessar, toda a vida.
Eduquei nele o meu cérebro, a ponto de espertar exatamente à hora, que comigo
mesmo assentara, ao dormir. Sucedia, muito amiúde, encetar eu a minha 
solitária banca de estudo à uma ou duas da antemanhã. Muitas vezes me mandava
meu pai volver ao leito; e eu fazia apenas que lhe obedecia, tornando logo
após àquelas amadas lucubrações, as de que me lembro com saudade mais
deleitosa e entranhável.

Nesse trecho conhecemos que a prática remontava ao tempo de menino, estendendo-se durante toda a vida. Vejamos os frutos.

Tenho, ainda hoje, convicção de que nessa observância persistente está o
segredo feliz, não só das minhas primeiras vitórias no trabalho, mas de
quantas vantagens alcancei jamais levar aos meus concorrentes, em todo o
andar dos anos, até à velhice. Muito há que já não subtraio tanto às horas
da cama, para acrescentar às do estudo. Mas o sistema ainda perdura, bem
que largamente cerceado nas suas antigas imoderações. Até agora, nunca o
sol deu comigo deitado e, ainda hoje, um dos meus raros e modestos
desvanecimentos é o de ser grande madrugador, madrugador impenitente.
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Rui Barbosa, [1913]

Fundação Casa de Rui Barbosa

Nesse ponto temos o clímax do trecho que comento neste artigo. É aqui que Rui cita expressamente a palavra segredo, mostrando que o segredo do seu sucesso residia na prática perseverante e disciplinada do estudo. Vejamos o desfecho.

Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar.
Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que
se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias, que se geram dos
conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no
espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada,
mas transformador reflexivo de aquisições digeridas.

O excerto escolhido se encerra mostrando a importância de se adquirir repertório próprio, processo que só acontece por meio da reflexão, da transformação interna do conhecimento adquirido, para que não sejamos meros acumuladores de formulações alheias.

Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas.

Rui Barbosa

Esse era o segredo do sucesso de Rui Barbosa: Estudar, estudar, estudar!

Pasmem! Isso tudo que é falado hoje sobre aprendizado contínuo, durante toda a vida, Rui Barbosa já falava, e praticava, há quase 100 anos!

Resumindo, aprendemos nesse texto de Rui Barbosa pelo menos os seguintes pontos:

  1. o processo de estudo é permanente, deve durar por toda a vida;
  2. é preciso ter metodologia para estudar;
  3. é preciso colocar em prática a metodologia;
  4. o estudo exige esforço, dedicação, disciplina;
  5. a prática disciplinada de estudo deve começar bem cedo na vida;
  6. o estudo produz frutos abundantes e, no caso de grande dedicação, superabundantes;
  7. os frutos do estudo permanecem durante longo tempo;
  8. o estudo pode nos levar ao destaque em nossa prática profissional;
  9. o estudo é grande fonte de satisfação pessoal; e
  10. o estudo deve nos levar a formar repertório próprio, fruto de reflexões pessoais que acrescentamos aos conhecimentos acessados em fontes diversas.

Pesquise a trajetória de profissionais excelentes. Veja que são pessoas que estão sempre estudando. Há no espírito deles uma busca constante pelo genuíno conhecimento, pelo aperfeiçoamento permanente. Por isso é que conseguem mobilizar o seu repertório de forma singular, e fazer com que o produto da sua prática profissional gere benefícios para todos os públicos impactados pelas suas ações.

Aos que operam no campo das leis, e aos jurisconsultos que ainda não conhecem a obra, vale muito a pena ler o texto integral do livro.

Aos colegas que militam na seara da Gestão de Pessoas, eis aí, na narrativa ruiana, uma bela reflexão para o processo de educação corporativa e de desenvolvimento de pessoas no seu sentido mais amplo.

A todos os profissionais, lembremos que a excelência não ocorre de forma automática, requer muito esforço, e uma parte significativa desse esforço deve ser direcionada ao estudo.

Pergunto: Você é um estudante?

Fica aqui expresso o meu desejo de ver aqueles que andam meio desanimados com as lides intelectuais se reanimarem, fazendo as pazes com os livros e com o processo de estudar. E aos que têm batalhado nessa seara, que possam ter as suas forças renovadas, para galgarem novos patamares de complexidade, produtividade e satisfação pessoal e profissional.

Vamos estudar!

Referência bibliográfica

BARBOSA, Rui. Oração aos moços. Edição popular anotada por Adriano da Gama Kury. 5. ed. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1999.

Bibliografia

BARBOSA, Rui. O dever do advogado. Carta a Evaristo de Morais. 3. ed. rev. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2002.

______. Osvaldo Cruz. Discurso pronunciado na sessão cívica de 28 de maio de 1917, no Teatro Municipal. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1999.

CAMARGO, Margarida Maria Lacombe (Org.). A atualidade de Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2001.

MACHADO, Maria Cristina Gomes Machado. Rui Barbosa: pensamento e ação: uma análise do projeto modernizador para a sociedade brasileira com base na questão educacional. Campinas, São Paulo: Autores Associados; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2002.

MAGALHÃES, Rejane M. Moreira de A. A atualidade de Rui. In: Palestra proferida na solenidade de formatura dos bacharelandos do Curso de Especialização em Direito Penal da Faculdade de Direito da UFG, em 5 de dezembro de 1997. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa – FCRB, 1997.

______; CARMO, Laura do. Bibliografia sobre Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2007.

______; SENNA, Marta de (Org.). Rui Barbosa em perspectiva: seleção de textos fundamentais. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2007.

SENADO FEDERAL. Pensamento e ação de Rui Barbosa. Organização e seleção de textos pela Fundação Casa de Rui Barbosa. Brasília, 1999.

Alguns desses textos da referência bibliográfica e da bibliografia estão disponíveis no sítio eletrônico da Fundação Casa de Rui Barbosa – FCRB, podendo ser baixados gratuitamente. No sítio há também outros títulos disponíveis que podem interessar aos leitores.

Pesquisa telemática

Academia Brasileira de Letras – ABL

http://www.academia.org.br/

Arquivo Nacional – AN

http://www.arquivonacional.gov.br/br/

Fundação Casa de Rui Barbosa – FCRB

http://www.casaruibarbosa.gov.br/

As fotos de Rui Barbosa foram utilizadas neste artigo com a devida autorização da Fundação Casa de Rui Barbosa – FCRB.

A Fundação Casa de Rui Barbosa – FCRB, fundação pública, vinculada ao Ministério da Cultura, sediada na cidade do Rio de Janeiro, tem por finalidade o desenvolvimento da cultura, por meio da pesquisa, do ensino, da preservação de acervos e da produção e da difusão de conhecimento [Fonte: Regimento Interno da FCRB].

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